Como o casamento por interesse, as guerras santas e a revolução industrial trouxeram até você o rolezinho.

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O mundo é movido por duas forças centrais que tomam conta da humanidade e fazem com que ela caminhe a passos largos rumo ao futuro, à inovação e à tecnologia: o sexo e a preguiça. A preguiça é a maior fonte de criatividade do nosso corpo. Se quiser testar, basta prometer para você mesmo que você vai pra academia todos os dias as 6 da manhã. No primeiro dia você vai feliz. Mas no segundo, sua preguiça vai convencer seu cérebro de que você não precisa, ou de que está com dor nos braços, ou de que amanhã você vai fazer uma hora a mais e compensar, ou de que o perigo de uma invasão alienígena é grande e o melhor é ficar na cama.

Você vai inventar as melhores desculpas para ficar no colchão. Assim como seu raciocínio fica extremamente acelerado quando você tem a intenção de levar alguém para o seu colchão. Foi pela preguiça de fazer duas viagens que inventamos a carroça. Pela preguiça de costurar à mão que inventamos o tear e a revolução industrial. Você vai me dizer que não, que foi por causa da necessidade de produzir mais. Mas a necessidade de produzir mais não existiria se não existisse também a preguiça do comprador de fabricar sua própria roupa e ele tivesse que comprá-la. Então, ao mesmo tempo em que a preguiça estimula a nossa criatividade, o sexo faz com que a gente faça coisas incríveis em busca dele. E o sexo, invariavelmente, está ligado a dinheiro. Durante muito tempo, só se casava por interesse. Ou seja, sem dinheiro, sem sexo com seres humanos para você. Corram para as colinas, cabras e gansos. Pessoas iam pra guerra em busca de riquezas para voltar e casar com a mulher que queriam. Provavelmente a menos peluda do burgo. Eu tô falando de encarar uma guerra pra poder ganhar dinheiro pra poder transar com uma mulher que tomava 3 banhos no ano e não conhecia gilette. Imagina a força que o sexo tem pra mexer com a cabeça de alguém desse jeito. Tudo isso pra dizer que a posse de bens sempre foi sexy. Sempre foi um fator social importante. E a partir do momento em que se inaugura a sociedade de consumo, a posse de bens passa a ser explorada de uma forma muito mais clara. Você tem produtos que indicam a sua capacidade de ganhar dinheiro. E te deixam mais apto ao sexo. E isso é a moda. Isso é o carro. Isso é o gadget. Isso é o seu apartamento. Isso é o seu cordão de ouro. Produtos que estimulam a sua preguiça enquanto demonstram publicamente a s sua capacidade de ganhar dinheiro e ser desejável. Aí as pessoas perguntam: por que fazer o rolezinho no shopping, se você tem parques e áreas abertas para fazer isso? Porque esses caras que estão no rolezinho nos shoppings foram atirados na sociedade de consumo pelo desenvolvimento econômico e tem no shopping a maior representação desse sucesso, desse crescimento, dessa entrada em um mundo que antes eles não podiam entrar. É o sucesso econômico que se traduz em sucesso sexual.

Não é político. É prático. O shopping é onde eles gostam de ir, é onde gostam de estar, é onde podem, como diz Amaury Jr, ver e serem vistos, xavecar garotinhas, conhecer rapazinhos. É muito diferente o ambiente de um shopping e de um parque. O que eles querem não é apenas se reunir. É se reunir em um lugar que os represente de alguma forma. Ao invés de ir ao parque, onde as pessoas são valorizadas pela forma física, pela atitude atlética e vida saudável, eles quererm ser julgados pelas roupas que vestem, pela atitude e coragem de estar onde antes não eram bem vindos e, também, pela capacidade de assustar as pessoas com seu comportamento fora do padrão classe média dos shoppings. Errados? Não. Eles estão se divertindo. O Rolezinho não é contestação. É quase que comemoração pela situação que hoje eles estão. E é ótimo que as pessoas consigam consumir e serem felizes. Eles não criaram a sociedade de consumo. Eles não criaram a importância das marcas. Eles não inventaram o culto ao Ter. Nem ao parecer ser. Eles não inventaram a “fama” que faz de algumas marcas mais importantes ou melhores que outras. Provavelmente, quem deu tanta importância a essas marcas que faz com que um tênis possa custar 1000 reais são as mesmas pessoas que agora reclamam da presença do rolezinho no shopping. E reclamam, no fundo, de dividir a exclusividade sobre o consumo que antes eles tinham. Reclamam de saber que o pessoal do rolezinho tem tênis, celulares e roupas iguais às deles. Enquanto não provarem que o rolezinho gera violência, roubos, vandalismo e etc, é apenas uma festa popular no shopping. Se você não gosta, não vá ao shopping. Ou acostume-se, porque as pessoas que fazem parte do rolezinho vieram para o mundo do consumo para ficar. O shopping é o templo do consumo. E em um templo, todos são bem vindos.

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A cultura do fracasso e Nutella

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De todas as buscas da humanidade, uma delas é a mais cruel. A busca pela felicidade. E chame felicidade daquilo que quiser. Do religioso que se isola da sociedade, abandona os bens materiais e busca a felicidade espiritual ao cara que só pensa em ganhar dinheiro para comprar tudo que a humanidade oferece para ser feliz, todos buscam a mesma realização. E no meio dos extremos há um monte de gente que mistura as influências todas e se torna o religioso ganancioso que á dinheiro para a igreja pensando em ser recompensado por isso e ter ainda mais sucesso nos negócios. E não dá pra dizer que nenhum deles esteja erradao. Acontece que não é de hoje que se fala sobre a diferença entre ser e ter. E o padrão de vida levou o ter a suplantar o ser. As pessoas ficavam orgulhosas de ter um carro maior, mais caro, mais potente. Uma casa maior, mais cara, mais bem localizada. Não porque isso trouxesse efetivamente mais alegria para a vida deles. Mas porque isso os colocava em um patamar acima dos amigos e conhecidos, como se houvesse, realmente, uma competição entre as pessoas para descobrir quem era o mais bem sucedido e nós fôssemos obrigados a participar de tudo isso.

E, se antes a competição era com seus familiares, vizinhos e conhecidos,  tecnologia transformou um pouco a forma como tudo isso funciona ao colocar a nossa vida escancarada para todo mundo ver. E, se por um lado o ter passou a ser importante em uma escala maior, já que amigos, de conhecidos de colegas de trabalho podem ver sua foto com carro novo, curtindo as grandes festas da alta sociedade em que você vive, por outro lado o ter perdeu importância em face do parecer. Você não precisa realmente ter tudo que aparenta ter para cauasar inveja nos amigos e amigos de amigos. Basta que pareça que você tenha e que você alcançou a felicidade, aquelas que monges meditam há anos em sua busca e você conseguiu com um simples jantar romântico com seu marido perfeito em um dos restaurantes lotados de São Paulo numa terça à noite, enquanto todos os seus amigos mal-sucedidos na busca pela felicidade, ficavam em casa com comida requentada e um programa safado na televisão. Parabéns. Você chegou lá. Ou pelo menos, parece que chegou lá.

Acontece que, pela influência da visão americana do mundo, a busca pela felicidade acabou virando a busca pelo sucesso, como se ele fosse garantia dessa felicidade. E todo mundo sabe que para cada ganhador do Oscar, existem milhões de atores comuns, fazendo seu trabalho honestamente. Para cada astro do rock, existe milhões de “Morrison Rock Bar” lotados de aspirantes a porra nenhuma no mundo da música. E isso não é ruim. É normal. Mas uma sociedade dividida entre vencedores e perdedores talvez não tenha muito espaço para quem não é o suprassumo da pica das galáxias. E a gente se sente frustrado simplesmente por ser uma pessoa normal, que trabalha bem, ganha um salário legal mas não é capa de revistas por aí. Ser um perdedor não está previsto nos nossos planos porque ser um perdedor significa que não ganhamos no jogo. Não alcançamos a felicidade, que está restrita aos vencedores. E não queremos ser vistos como infelizes e emuito menos como perdedores por todos os nossos amigos e vizinhos, ainda mais agora que estamos tão expostos.

A faculdade cara, os cursos de inglês, as viagens para o exterior em busca de experiências de vida únicas que enriqueceriam seu cúrriculo e garantiriam uma poupança (aliás, poupança não que poupança é investimento de perdedores. Eu quis dizer Ações de alto risco) gorda.

É, essa tal felicidade não é nada fácil. Aliás, pelo contrário, ela é inatingível na vida real, ficando restrita ao facebook  e aos relatos apaixonados e cegos de nossos avós e pais mais preocupados com a aparência (ter um filho feliz e realizado também conta na imagem de realizado dos pais, já que além de serem bem uscedidos e felizes, ainda passaram essa capacidade para os filhos).

Aí a gente fecha o facebook, o instagram, desliga tudo isso e olha para as pessoas de verdade e muito pouca gente está feliz, contente com o rumo da vida e o trabalho que faz. Muita gente indo em psicólogo por insegurança, baixa auto-estima, depressão, pressão exagerada e uma cobrança interna acima da média.

E para esses, que ainda chamaremos de perdedores só pra não perder a referência de cima, sobram poucas chances de se tornar feliz de verdade no jogo que está sendo jogado. Então, mudemos as regras.

Se você é feliz com seu carrão e sua casa espetacular, problema seu. Se você é feliz rezando e alcançando a paz espiritual, problema seu. Eu vou criar meu próprio padrão de felicidade, e esfregar na cara do mundo, dizendo “chupa sociedade”, pela simples supervalorização de coisas que eu consiga ter. Pela simples eleição de ícones atingíveis de felicidade completa que possam ser compartilhados em todas as redes sociais para causar inveja nos outros e transformar minha vida em algo digno de uma pontinha de ódio por eu possuir tanta alegria.

E assim surgem ícones da alegria comportada dos antes considerados (injustamente, claro) fracassados: Nutella e Bacon.

A supervalorização do Nutella e do Bacon estão intimamente ligadas à nossa sub valorização do que fazemos em face do que, aparentemente, os outros fazem.

Você não conseguiu ser a diretora da empres, o que seria normal, já que cada empresa tem 10 diretores para cada 100 funcionários? Tudo bem, você nem queria mesmo. Você tem a chance única de destruir a insatisfação em um pote gigante de Nutella. E até a diretora da empresa que você inveja, no fundo se rói toda pela sua felicidade em forma de avelã líquida. Ou, se você for homem, uma boa dose de bacon gorduroso. Todos devidamente postados em fotos deliciosamente mal tiradas no facebook.

E a cada dia seguimos criando troféus falsos que atestam a nossa felicidade. Porque, se podemos assumir que não somos os “vencedores” que esperavam que fôssemos, não podemos jamais assumir que não alcançamos a tão sonhada felicidade. Mesmo que a humanidade inteira, desde sua chegada no planeta, não tenha conseguido alcançá-la. Talvez porque, na época, não existisse Nutella e Bacon.

Escândalos, política, mensalão e um filme pornô.

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Olhando as notícias do momento no jornal eu fico pensando.

Eu deveria ser de direita, desses reacionários, que querem que os mensaleiros passem fome, sofram, fiquem presos pra sempre e, assim, paguem pelos crimes que cometeram, como se isso fosse justiça. Seria fácil definir os problemas do país apenas culpando os 4 P’s: Pretos, Pobres, Paraíbas e Preguiçosos.

Eu poderia achar que o Bolsa Família só serve pra ajudar os vagabundos que não querem trabalhar, acreditando que 100 reais por mês deixam alguém em condições de não querer mais nada da vida. Seria simples dizer que o trânsito, que me impede de chegar rápido ao trabalho, é causado pelo contingente de nordestinos na cidade, esquecendo de dácadas de descaso com o transporte público e da má organização viária da cidade desde seu nascimento. E, claro, colocaria tudo isso na conta do partido vizinho, como um verdadeiro torcedor político que só vê os erros do juiz em lances contra o seu time, odeia os torcedores rivais e não suporta o sucesso alheio, sempre tentando desmerecer suas conquistas ao invés de perceber que o dirigente da sua agremiação é que não foi capaz de montar um time à altura do adversário.

Mas eu paro pra olhar pra mim nessa situação e me sinto um completo idiota. Então desisto. Penso em partir para o outro lado.

Vou me tornar da esquerda cega, vermelha de ódio, que acredita que, como já existiram diversos escândalos maiores que o mensalão, os políticos envolvidos não devem ser punidos. E que essa punição é um absurdo, afinal, eu, como bom ser politizado, entendo muito mais de direito do que a maioria dos ministros do STF. E dessa forma, continuo defendendo José Dirceu e Genoíno pela história e participação que tiveram, tempos atrás, na democratização do país, esquecendo que a história é feita do todo, e não apenas dos anos que queremos lembrar.

Poderia ficar satisfeito em desdizer a Veja e seus leitores medíocres e ingnorantemente úteis às elites, esquecendo que também faço parte das elites e potencialmente dos ignorantes. Seria fácil achar que os ricos tem responsabilidade pelos problemas do país, tentando eliminar a diferença social ao retirar dinheiro dos ricos ao invés de dar condições de ganhar dinheiro aos mais pobres, deixando clara a ideia de que um país sem desigualdade social é onde existem menos ricos, e não onde existem menos pobres. E seria confortável tentar desvalorizar os pensamentos dos outros partidos, afinal, posso assumir a tese de que estou ao lado dos mais fracos e ninguém seria louco de, assumidamente, se manifestar contra os mais fracos.

Mas me vi nessa situação e também me senti um palhaço.

Comecei a pensar que, no fundo, embora tudo isso faça toda a diferença na nossa vida, a gente acorda cedo pra trabalhar no dia seguinte, segue tentando arrumar um jeito de melhorar de vida, mudar de trabalho, aprender outras coisas, se importar com o que realmente faz diferença e tocar a vida. Pagar um plano de saúde pra não depender de hospital público, ganhar mais para pagar a escola das crianças e não precisar de escola estadual, morar em um lugar seguro e não ficar na mão da segurança do governo e, no fim, cuidar de tudo por nós mesmos.

No fundo, a política é como um filme pornô. Vira assunto entre os amigos, causa polêmica na mesa do bar, é discutida por todo mundo, mesmo cada um tendo sua preferência e até diverte o pessoal. Mas, na verdade, só quem sabe a podridão, a sujeira, a falsidade e o cheiro ruim é quem está por dentro (nos dois sentidos) do negócio, nos bastidores, envolvidos de verdade na produção do filme. O que a gente vê daqui é só o que aparece na tela, uma fantasia.  E a cada dia a gente é surpreendido por alguma coisa mais escandalosa e suja que a anterior, mas depois isso vira comum e a gente se acostuma. E continuamos assistindo enquanto tentamos nos virar com nossas próprias mãos.

 

Mega-sena, a prostituição e, claro, o Rei do Camarote,

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Essa semana teve sorteio da Mega-sena. Milhões de pessoas foram correndo para as lotéricas, fizeram fila e esperarm por horas para correr o risco de ganhar 80 milhões de reais. No fundo, o sonho de todo mundo é ser milionário, não precisar se preocupar com o futuro, não ter chefe e poder aproveitar o melhor da vida. Se fosse ruim ter dinheiro, ninguém correria atrás dele. Ele facilita a vida. É como um filme pornô eslovaco: você não precisa saber falar a língua para entender o que ele está dizendo.

Mas, como o segundo esporte preferido do brasileiro é a contradição, o país é um dos lugares onde o dinheiro é mais odiado.

Ter dinheiro, no Brasil, é sinônimo de arrogante, escroto, metido, esbanjador, idiota. A nossa super valorização da vida simples faz com que o Zeca Pagodinho seja um grande exemplo de vida porque ganhou muito dinheiro mas continua morando na favela. Como se não fosse um sonho comum da população das favelas conseguir sair de lá e como se não fosse o sonho de 100% das pessoas que não moram na favela, nunca ter que morar lá.

Mas a desculpa é que “Zeca Pagodinho não esqueceu suas raízes”, como se as raízes dele fossem o lugar onde ele mora e não a forma como ele se comporta. Ele, se quisesse, poderia muito bem ir morar em Ipanema e continuar sendo humilde no comportamento.

Mas com certeza, tendo uma cobertura em bairro nobre do Rio, ele seria considerado esnobe. Se você comprou um carro importado, você é esnobe. Não importa se teve que trabalhar anos da sua vida para conseguir pagar.

Se vai viajar para o exterior, é metido. Podia muito bem ter ido pra Itanhaém que também tem mar. Ou para Campos do Jordão, que é frio. Aliás, Campos do Jordão não, porque é cheio de gente rica, esnobe e que anda com perfumes importados desnecessários.

A gente mede o mundo com a nossa própria regra. Principalmente a classe média mediana.

O esnobe da vez é o Rei do Camarote. Eu não sei se ele é real ou não, mas que existem alguns desses por aí, existem. E o povo cai matando em cima do cara porque ele gasta 25 mil reais em uma noite de festa.

Idiota é o mais elogioso dos xingamentos que ele recebeu. Mas qual é a crítica? Que ele esteja usando o dinheiro dele para se divertir ao modo dele em uma balada?

Argumento inválido.

“Ah, mas ele gasta o valor de um apartamento por mês com festinhas”.

 Ok, mas quem está se preocupando com isso é você, não ele.

“Ah, mas essa desigualdade cria um ambiente ruim no universo sideral”.

Verdade. Mas e quando você faz isso é normal?

Sim, porque nós fazemos isso o tempo todo.

Você vai ao America classe média mediana comer um “burger” com a namorada e gasta lá seus 100 reais.

Aparentemente uma conta honesta, certo?

Mas e para o cara que ganha um salário de 450 reais por mês, trabalhando em um dos sub-empregos que a cidade oferece? Você acha justo gastar 25% do salário dele em um único jantar enquanto ele tem que desdobrar 450  reais por um mês inteiro?

Acha.

E faz isso sempre.

E você, na visão desse cara, é o rei do camarote.

Mas você não se importa, porque o mundo, na sua cabeça, gira em torno de você. Quem tem mais dinheiro que você é pilantra, filhinho de papai, desonesto, corrupto. E quem tem menos é vagabundo, preguiçoso, não se esforça.

É tudo uma questão de ponto de vista. A sua regra é perfeita para você se sentir confortável com as suas próprias escolhas.

Você vai dizer que a diferença é que o Rei do Camarote é exibido, faz isso só pra chamar a atenção. E eu concordo. Mas e as suas fotinhos no Facebook? Seus biquininhos em frente ao mar de Maresias, suas pernas de salsicha na piscina do hotel, seus pratos fotografados #nofilter com as amigas em um restaurante moderninho da Vila Madalena, não são exibição só porque são atividades que estão ao alcance das suas finanças?

A questão é que o mundo sempre foi da festa e do esbanjamento para aqueles que tinham dinheiro para fazer isso. Não é de hoje. Calígula que o diga. Luís XIV, o Rei Sol, também famoso pelas festinhas. E aí vem você julgar o  Rei do Camarote, como se a caixinha que dá pro manobrista quando sai do restaurante limpasse sua barra pelas décadas de desigualdades sociais causadas involuntariamente por pessoas como eu e você.

Sabemos muito bem que o dinheiro abre portas. E pernas.

Só que você só acha do tamanho certo as portas e pernas que são abertas para você e a sua quantidade de dinheiro.

Se tem alguma coisa para criticar no Rei do Camarote é apenas a sua burrice para os negócios.

Com todo o respeito, gastar 25 mil reais em uma festa para, no fim da noite,  uma delas aceitar transar com você só porque você tem dinheiro é burrice. Com metade dese valor ele poderia pegar 3 das putas mais caras de São Paulo.

Afinal, se as meninas do camarote só estão lá por causa do dinheiro dele, mesmo que elas não se chamem assim, no fundo são putas também.

E, nesse caso, melhor confiar numa profissional. No mínimo agrega mais ao camarote do seu quarto.

Beagle e umbigo.

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90% das pessoas tem empregos e atitudes que não mudam o mundo em nada. Não estou dizendo que estão errados, mas a gente sempre foi criado com base na importância e honra de nossos atos. Ninguém quer ser a irmã escrota da Cinderela, mas todo mundo quer ser o príncipe que chega lá e muda a vida dela  (mesmo que ele lembre tão pouco dela que a única forma de encontrá-la seja testar, de pé em pé, o sapato de cristal que, milagrosamente, não desapareceu com o fim do encanto).

Todos nós acreditamos, principalmente a geração Y, que estamos fadados ao sucesso e à grandiosidade. Só que na hora de trabalhar, somos bancários, publicitários, auxiliares administrativos e outras profissões que não tem o glamour e a responsabilidade de mudar o mundo ou a vida de ninguém.  Se quiser, pode se contentar dizendo que liberou um empréstimo que permitiu a uma pessoa comprar sua casa e realizar seu sonho, mas no fundo você sabe que isso não significa nada perto da grandiosidade do trabalho de cientistas, pesquisadores, professores, bombeiros etc.

Isso cria um certo vazio. Uma vontade de fazer coisas relevantes para o mundo, deixar um legado para os filhos ou pelo menos mostrar aos outros que você não é um bunda mole acomodado que se engana com mentiras pré-fabricadas sobre a sua profissão para fingir que ela é fundamental na ordem social atual.

Então você resolve colocar para você mesmo uma causa social como sua razão de viver, como se ajudar esse milimétrico pedaço do mundo que está com problemas tirasse dos seus ombros a culpa por décadas de indiferença. E você veste a sua roupa de ajudar, a sua máscara de gente boa e vai fazer alguma coisa, com o coração limpo e luvas de borracha nas mãos. E sob a desculpa de que “já há muita gente pensando nas pessoas e poucas pensando nos animais” aliada à ideia de que um cachorro é muito mais fácil de limpar, ajudar e adotar do que uma pessoa, você decide virar um ativista pelos direitos dos animais. Uma Luisa Mell sem fama, que vai salvar a vida dos cachorrinhos acima de qualquer situação embaraçosa que eles possam estar vivendo. Acho até estranho que você não seja azul e viva no mundo de Avatar, tamanha a sua relação com a natureza e os bichinhos.

E, num rompante de força e motivação extrema, você invade um instituto de pesquisa e libera os pobres beagles que eram tratados de forma desumana. (Nada mais natural, afinal, não são humanos mesmo).

Parabéns para a sua louvável atitude de coxinha revolucionário, que dorme com o pijama do Che Guevara para acordar de manhã e usufruir dos benefícios de um bom xampu, uma pasta de dentes agradável, tomar seu remédio contra ressaca, limpar o chão cheio de vômito do banheiro com um desinfetante e ficar com a consciência limpa por ter feito o que era certo.

Mas esquecendo que sua vida inteira é feita de produtos que foram testados em animais. Inclusive o seu computador, de onde você inunda o facebook com fotos de um beagle, tirada unicamente para compartilhar o olhar para o seu próprio umbigo. Não estou defendendo que se maltrate os animais, não. Longe disso. Acho justo que eles tenham um tratamento digno, principalmente sabendo que eles tem uma importância muito maior para a humanidade do que a gente, com nossa profissão classe média boçal. Mas lembre-se que você chegou até aqui por causa deles. E sua vida é muito melhor, mais segura e mais fácil hoje por causa desses bichos. E, das pessoas que sequestraram os bichinhos no instituto, não vi nenhuma mal arrumada, com cabelos sujos e sem luzes. Na verdade, creio que todos ali usavam xampu, em uma olhada breve. E não existe xampu nenhum que não use animais para testes. Você vai me olhar com cara de autoridade e dizer que a Natura não testa seus produtos em animais. Concordo. Mas os ingredientes que ela compra para compor o xampu, obrigatoriamente, usam animais para serem testados. É necessário. É útil. É importante. É humano.

Mais da metade das doenças mortais de 50 anos atrás não assolam seus filhos hoje graças a bravos cachorrinhos, gigantes ratinhos e uma série de animais que foram testados para salvar a sua vida. E você, egoísta, não quer que seus filhos e netos tenham essa facilidade. Se seus pais ou avós tivessem pensado assim, a gente podia estar bem ferrado.

Existem outros métodos para fazerem esses testes? Em alguns casos sim. Em muitos, não. E na maioria não são confiáveis.

E existem outros métodos para se fazer um protesto contra o uso de animais? Na maioria dos casos sim.

Eu acho os animais espetaculares e sou totalmente a favor de protegê-los. Mas eu acho os humanos ainda mais fantásticos. Talvez seja corporativismo. Mas o fato é que eu, sem pensar, troco 100 beagles por uma cura do câncer. Como já foram trocados pela descoberta da insulina, vacina pra varíola, antibióticos em geral, diálise, remédio para pressão e a quimioterapia, por exemplo. Pergunte a quem depende disso se eles gostam mais de cachorros do que dos remédios que usam e, infelizmente, eles escolherão o remédio.

E você, na ânsia de fazer algo de produtivo pelos cachorrinhos, ajuda a ferrar com um monte de pessoas. Esquecendo que a pior forma de maltratar um animal e desrespeitar sua história é simplesmente pedir um bife bem passado.

Colonização, Conde Chiquinho Scarpa, Igualdade social e a coxinha.

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Quando Cabral chegou aqui, tratou logo de fazer duas coisas: mandar uma carta pro rei e decidir que eles eram desenvolvidos e os índios eram atrasados. Tá certo que eles andavam pelados, o que hoje é ser moderno, mas na época era sinônimo de atraso.

Essa diferença aí não foi inventada por Cabral, claro.  É da natureza do homem.

Já era assim entre os romanos e os bárbaros, entre a corte e a plebe, os camponeses e senhores feudais, colônia e metrópole.

 

No Brasil ela teve um componente especial. Portugal não mandou pra cá as menininhas de família, os grandes gênios do país ou jovens trabalhadores. Na verdade, a maioria que veio pra cá não era lá grande coisa. Prova disso é que os primeiros a chegarem eram padres.

Mas além deles vieram bandidos, prostitutas e gente com problema na justiça.

E alguém que era mal visto em Portugal, chegava aqui e descia da caravela com o status de desenvolvido perante os índios, ou seja, com alguém abaixo dele na escala da vida, não iria querer perder esse status.

E isso foi continuando. Escravos embaixo, senhores em cima. A corte veio para cá trazendo os títulos de nobreza, cuja única função era colocar uns acima dos outros e separar um pouco mais a sociedade. Não à toa, até hoje o Chiquinho Scarpa se apresenta como Conde. Vieram os italianos, trabalhar nas fazendas, inaugurando a classe assalariada. Assalariada, aliás, que é mais uma forma de separar a sociedade entre os que tem salário e os que são empresários, fazendeiros e industriais, como se esses fossem melhores que aqueles.

O mundo vai mudando, a sociedade vai pensando, as coisas vão acontecendo e surge a tal da igualdade social.

E igualdade social no Brasil é como sexo anal. Todo mundo defende, acha bonito, apoia, fala que a mulher tem que ser liberal. Mas quando quem aparece no vídeo é sua filha, você acha que ela é uma puta.

A igualdade não existe plenamente no Brasil, longe disso. Mas hoje ser empresário não é garantia de ser rico. E ser assalariado não é garantia de ser pobre. E quem antes era considerado pobre, cada vez mais consegue ter acesso a coisas que antes só os ricos podiam. E as diferenças sociais, aos poucos, vão diminuindo. E a classificação entre pobre e rico vai perdendo força. Mas mudanças na sociedade não são assim tão fáceis. E quem sempre esteve acostumado a estar por cima, não gosta de ver que agora estão lado a lado, com um iphone igualzinho ao seu. E aí é hora de tomar uma atitude.

Nada melhor para se diferenciar de alguém do que usar as mesmas armas que ele, mas de uma forma que só você pode: de uma forma gourmet.

Ele toma cerveja. Você também, mas cerveja gourmet. E ele não está disposto a pagar 10 reais a mais somente por ela ser oriunda de um país mediterrâneo.

Ele come hambúrger. Você também, mas um hamburger gourmet. E ele não está disposto a entregar 35 reais por conter carne do centro do miolo de um corte nobre da bunda do boi.

Ele come brigadeiro. Você também, mas um brigadeiro gourmet. Que vende no shopping, em lojas marrons e azuis, e que são feitos com leite puro de vacas tratadas com capim orgânico. 7 reais o de tamanho menor.

E a gourmetização ganhou todos os pontos da cidade, atrás de um público que defende a igualdade social por fora, mas quer se sentir superior economicamente por dentro. E se dedica a pagar mais caro, tirar fotos dos pratos antes de comer e compartilhar endereços super transados e sofisticados que cobram 3 vezes mais caros pelo mesmo prato. Só pra poder ser de esquerda, mas sem perder o poder e o status que o dinheiro dele sempre lhe conferiram.

E a culpa disso, no fundo, é sua. Ou tem outra explicação para você pagar quase 6 reais em uma coxinha?

 

 

Sobre “Loucuras de Amor” e o Mundo dos Mortos.

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Nos anos 90, entre banheiras, sabonetes, bundas e o Cumpadi Washington, Gugu dava espaço para o amor.

Parece contraditório falar em amor enquanto dois desconhecidos se engatavam em busca de sabonetes que davam pontos para os homens ou as mulheres.

Mas o fato é que Gugu lançou a “Loucura de Amor”.

Alguém mandava uma carta (sim, na época eram cartas), declarava seu amor e se dispunha a realizar uma loucura para mostrar o tamanho do que sentia.

As bizarrices iam de chuva de pétalas de rosas sobre o trabalho do marido, cantar em um trio elétrico em frente à casa da mulher e muito mais, frutos da fértil mente aloirada do pai do pintinho amarelinho.

O fato é: é necessário fazer uma “loucura” para declarar seu amor? Não dá pra simplesmente ir até a pessoa e dizer para ela o que você sente?

Dá.

Mas o que movia as pessoas no “Loucura de Amor” era mais que declarar seus sentimentos. Era mostrar isso para todo mundo. Provar para os outros que você ama muito. Aliás, muito mais do que todos os que estão assistindo, já que nenhum deles fez isso nenhuma vez, certo?

Parece estranho? Bom, não é. Se pensar que na época não tinha Facebook nem Orkut, a televisão ainda era a melhor forma de mostrar pra todo mundo que você é melhor que eles.

Se formos pegar a essência, hoje vemos grandes “Loucuras de Amor” diariamente. Declarações de amor, fotos de rosas ganhas no dia do aniversário, jogos de videogame dados como presente e tudo isso seguido de dezenas de likes, que na cabeça de quem postou, é mais importante do que o Like simples e único que ele ganharia da namorada se simplesmente falasse tudo isso pra ela.

Só que em certo ponto disso, perdemos a mão.

Não é difícil encontrarmos no Facebook mensagens de pessoas lapidando a imagem e condecorando parentes já falecidos, dizendo o quanto aprenderam com eles e das saudades imensas que deixaram.

E eu me pergunto: pra que? Pra quem?

Considerando que o mundo dos mortos e espíritos realmente existe, será que a melhor forma de falar com eles é através do Facebook?

Estamos fazendo uma espécie de Psicografia Reversa.

Se antes tínhamos um morto falando com um vivo através de um médium, hoje temos um vivo falando com um morto através de uma mídia.

Uma situação que parece ser muito mais para fazer tipo e criar um personagem do que movida por um sentimento real.

Como se fosse preciso provar para os outros que você sente saudade, que sente falta, que gostaria que a pessoa estivesse viva. Como se, mais importante do que ter essa certeza, fosse garantir que os outros a tenham e percebam que você sofre. É como se você devesse dar uma satisfação de tristeza com a perda para compensar os check-ins que você deu em bares e as fotos que você tirou sorridente na sua vida virtual perfeita. Aparentemente, alguns likes são suficientes pra apagar alguma culpa ou ressentimento e deixar você com a imagem positiva.

Afinal, atualmente é mais importante parecer que você sente do que sentir de verdade. E nessas horas, nada melhor do que uma boa mensagem póstuma no facebook que garanta a sua imagem de filho sentido, sobrinho carente ou amigo desolado.

É a “Loucura de Amor Póstuma”.

A bolsa de valores, os Yuppies, a Sandy e a crise em que você se encontra hoje.

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A sociedade funciona em ciclos. O que hoje é legal é exatamente o que será negado pela geração de amanhã.

Os anos 70 foram marcados pelo hippies, com seus pelos, kombis, maconhas e música. Já os anos 80 foram marcados por outros personagens sociais marcantes e opostos: os yuppies

Se os hippies tinham medo que a EUA e Rússia acabassem com o mundo de repente e por isso defendiam a natureza, mulheres peludas, a liberdade, o amor , as tetas caídas, roupas bizarras e o sexo, os Yuppies usaram esse medo pra correr atrás de dinheiro, sucesso, modernidade, terninhos, putaria e tecnologia. Ou seja, aproveitar a vida ao máximo antes que alguém apertasse o botão errado.

Nada mais justo, se nos anos 80 Magal, Gretchen, Matthew Broderick e até o Leoni fizeram sucesso e curtiram a vida adoidado, não devia ser tão difícil.

E numa época em que a bolsa de valores podia aumentar seu capital consideravelmente de uma hora para outra, pessoas que tem pouco a perder tem muito a ganhar.  Foi o que eles fizeram. Ganharam dinheiro aos montes, alcançaram o sucesso cedo e viraram exemplo para uma geração inteira.

Foi aí que surgiu o mantra  americano do “1º milhão de dólares antes dos 30 anos”, como se todo mundo tivesse condição e obrigação de conseguir isso.

No fundo, a grande mudança que eles trouxeram para a sociedade é que até aquela época, uma pessoa começava a trabalhar aos 16 ou 17 anos, trabalhava muito para sustentar sua família e chegava aos 40 com aquela sensação de que a vida não tinha servido para nada. E isso deu origem à famosa Crise dos 40 anos.

A solução era plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho, mas no fundo o que acontecia é que as pessoas percebiam que tinham trabalhado muito, em empregos repetitivos e chatos, ganhando menos do que deviam, até chegarem a uma idade em que eram quase descartáveis e percebiam que nada disso tinha valido o esforço.

Pausa: reforçando que o Leoni fez sucesso nessa época. Pense nisso.

Voltando.

Os yuppies mostraram que isso não era mais uma obrigação. E quando essa geração teve seus filhos, da metade dos anos 80 para o final, criaram as crianças em salas acarpetadas, com iogurte vazando das geladeiras e sem a obrigação de antigamente de trabalhar, sustentar uma família e logo criar sua própria vida.

E quem nascia assim, a Geração Y, no caso, aproveitava a vida boa gerada pelos pais até mais tarde, começava a trabalhar já com seus 20 e poucos anos, com a ideia de que o sucesso dos pais e seus contemporâneos seria facilmente repetido por eles. Essa certeza do sucesso os leva a exigir mais de seus empregos. E de si mesmos. Mas quando chegavam ao mercado de trabalho e percebiam que ele estava inundado de pessoas na mesma condição, com as mesmas capacidades e habilidades, e que não chegariam ao primeiro milhão antes dos pais, o mundo desmorona.

As meninas menstruam mais cedo, os rapazes transam mais cedo, os casais abortam mais cedo, eles entram em faculdades melhores que os pais, eles entendem de tecnologias novas, como eles podem não ter sucesso mais rápido que seus progenitores? Para eles, a conta não fecha.

E por isso os empregos nunca estão bons, as pessoas nunca sabem avaliar suas capacidades, tudo está sempre errado porque o mundo lhes deve um sucesso que eles não conseguem alcançar. E já que eles fazem tudo antes dos pais, a crise dos 40, agora, chega aos 30.

E a questão não é mais o trabalho repetitivo e chato. É não ter feito nada relevante, não ter do que se orgulhar, fazer só o que tem que ser feito e não ter como humilhar ninguém com sua felicidade nas redes sociais, exceto por fotos esparsas de momentos que não são constantes.

E quando a Sandy, filha do Chitãozinho e Xororó, canta que é “jovem pra ser velha e velha pra ser jovem” aos 30 anos, tendo ganhado seu primeiro milhão aos 7, é porque a geração tá na merda mesmo.

Hoje, vivemos mais e melhor, mas aos 30 já estamos nos culpando por não ter conseguido o que queríamos, como se não tivéssemos mais chance de conseguir. Junte a isso um ataque feroz à nossa auto-estima através de facebooks de pessoas sempre felizes e realizadas, mas que nuca somos nós; de filmes pornôs caseiros falsos que nos dão a falsa sensação de que tem sempre alguém transando mais e melhor que a gente; a auto-ajuda e suas lições de sucesso que não funcionam e nos fazem pensar que a culpa é nossa; e ao mundo inteiro, de forma falsa, jogando na nossa cara que todo mundo consegue o sucesso, menos você.  Na verdade quase ninguém consegue. Ou os psicólogos não estariam tão cheios de trabalho.

Então, se hoje, você está na beira dos 30 anos e acha que a situação tá ruim, que o trabalho é uma merda e que você merece mais que isso, a culpa tem grandes chances de ser do modelo que você adotou de vida, baseado nos filmes do Tom Cruise que assistia na Sessão da Tarde.

E enquanto isso, nunca se vendeu tanto remédio pra dor de cabeça e dor de estômago. Os novos Yuppies devem ser os fabricantes de analgésico.

Sobre o dinheiro, as relações humanas e a vida dos vizinhos.

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O moderno de hoje é ser antigo. Não antiquado, mas a moda do retrô e do vintage mostra isso. Geladeiras vermelhas com cara de antiga, óculos de aros grossos, barbas compridas, comida feita com ingredientes orgânicos (um jeito mais bonito de falar natural), uma valorização do que é feito à mão em detrimento do que é industrializado.

Quem diria, logo a indústria que nos anos 50 era o símbolo da modernidade, do futuro da capacidade humana, é hoje colocada de lado e trocada pelo artesanato.

A modernidade traz o ipod, mas a gente ouve as músicas do Elvis. E coloca o ipod envolto por uma capinha de madeira, parecida com as caixas dos rádios dos nossos avós.

Claro que o antigo, no caso, é muito mais um estilo do que uma vontade real. Você acha legal ter sua capinha de madeira mas não abre mão de fotografá-la para colocar no facebook com seu celular.  É contraditório. Mas acima de tudo, é real.

Esse tipo de comportamento atinge, obviamente, as nossas relações. Hoje temos muito mais contato com nossos amigos do que tinham nossos pais. Mas esse contato é, na maior parte das vezes virtual. Contato real mesmo, talvez tenhamos até menos do que tinham os mais velhos, até pela correria que o mundo se tornou (e o fato de um dia hoje, de verdade ter uma média de 16 horas ao invés de 24 horas, graças à mudança na vibração da Terra e do universo, que controla o quartzo dos relógios, os intraterrenos, as 15 densidades dos humanos, Atlântida e outros assuntos que trataremos em outro post).

Voltando. Trocamos a relação aparentemente mais distante dos nossos pais e seus amigos por uma relação aparentemente mais próxima. Mas a questão é exatamente essa: aparências.

Uma das coisas que nos distancia das outras pessoas é justamente a tecnologia, que usamos com a desculpa de que nos aproxima.

Os bancos, cada vez menos, possuem caixas humanos para nos atender. O objetivo é que 99% de tudo que você precisa fazer em um banco seja nos caixas eletrônicos ou online.

As compras pela internet são espetaculares, mas tiram de você a chance de encontrar alguém na fila do caixa ou perguntar pra uma vizinha desconhecida se a laranja está madura.

O controle remoto do portão do prédio é seguro, mas evita até aquele leve cumprimento ao porteiro.

O email é prático, mas diminuiu o número de ligações que fazemos para as pessoas.

Até o bilhete único diminuiu o número de sorrisos que o cobrador (profissão que em breve será extinta) recebia.

E a tecnologia transformou o dinheiro, papel moeda, em vilão. E aquela pequena conversa que você podia ter com o caixa do supermercado sobre as condições do tempo, a fofoca sobre a vizinha ou um simples roçar de mãos na hora de pegar seu troco, ficou restrita a uma automática e tecnológica pergunta: crédito ou débito?

 

Quem diria, que o dinheiro, responsável por tantas inimizades, seria agora a salvação para a gente ter um pouco mais de comportamento humano.

Sobre os neo hipsters geeks modernos e o vazio da música contemporânea.

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Nos anos 80, alguém que estudava muito era um nerd. Alguém que gostava de ler, correr atrás de fanzines, copiar em fitas k7 músicas de bandas desconhecidas e tinha uma predisposição para a tecnologia e naves espaciais que explodiam. Sofriam bullying na escola. Se fechavam mais ainda dentro de casa e formavam um grupo de pessoas parecidas, com os mesmos gostos, e viravam o grande grupo nerd do colégio.

Acontece que o tempo passa e esses caras, que estudavam mais e se dedicavam mais a isso, cresceram e se deram bem na vida. E o malandrão que os zoava talvez ainda esteja na merda até hoje.

E como moda, no fundo, é querer ser o que a gente não é, ser nerd virou moda. E ganhou até uma palavra nova, quase sinônima: geeks. Um jeito moderno de ser nerd.

Star Wars, Star Trek, RPG, Video-games, Apps, jogos de tabuleiro, coleções diversas, bonequinhos de brinquedo e pornografia da pesada, tudo isso virou mania até entre quem nunca teve relação nenhuma com essas coisas no passado.

E como a moda é ser geek mas também é rotular, foram criando-se outras denominações para variação geek. Surgiram os hipsters, se juntaram com os indies e criaram um grupinho de pessoas perfeitamente chatas.

Pessoas que estão sempre à nossa frente, sabendo antes de todo mundo qual é a próxima moda que eles deixarão de gostar.

Aparece uma banda nova. Eles valorizam, cultuam, defendem, dividem entre si e espalham para todas as pessoas que eles conhecem. A banda então faz sucesso e começa a tocar em baladas frequentadas por eles mesmos. A glória. Um orgasmo a cada acorde. Mas como sempre tem um intruso nas festas, essa música se espalha fora da rodinha geek hipster indie e um dia, enquanto dirigem suas vespas e envergam suas camisas do Darth Vader, vêem na rua um simples proletário com a camisa da sua banda desconhecida favorita.

O mundo cai. Porque coisa boa é o que pouca gente conhece, pouca gente gosta e muita gente ignora.

Pior. Ouviu falar, em um podcast do submundo, que a banda vai fazer um show. Em São Paulo. O terror toma conta de suas cabeças. Os olhos vidram. Já não sabem mais o que fazer.

Ligam para os amigos. Invadem as redes sociais, com críticas a essa banda vendida que agora toca para qualquer um. Lotam o bar sujo que frequentam e decretam: não ouço mais a música POP dessa banda, que ele conheceu, claro, na época que ainda era boa.

A sorte é que chega, em seguida, um amigo e tira de seu all star colorido uma canção nova de uma banda que nunca ouviram falar e que nasceu no norte da escandinávia, com um dos membros tendo apenas uma perna.

Sonoramente, é a mesma coisa da banda que eles gostavam tempos atrás. Mas não importa. Até porque, se eles se importassem com o som das bandas, não ouviriam o indie. A questão do gosto é política. É demarcação de território. Mostrar que sou mais antenado que você me faz melhor. E começa, novamente, a saga Neo Hipster Geek Moderna.

A eterna vanguarda do passado da história do mundo.